domingo, 6 de novembro de 2011


Envio-lhe as menções da alma, essa que sofreu
O cinza das tardes, os restos dos olhos cansados
O amor e seu secreto desconhecimento.
A presença de um anjo divinizado, no alto

Daquela montanha que sozinha cumpre
Sua sina pontiaguda, seu perfil erecto.

Envio-lhe memórias dúbias, ressentidas
Como afagos que ficaram na pele
Entumescidos e chagados. O bronze diluído,
O raso riso das mulheres nas noites cálidas
O encontro com o inexpressivo do meu verbo
A fatalidade do poema e seu assombro.

E entre os restos, o fluído do meu ser.


                                                (d.f.m)



por bem lhe mostro minha face
voltada ao escuro. como escolho
as máscaras, assim também respiro
sem lhe prometer regressos, ou albas,
sem que te espante as tardes
em que não estou. só o espelho
de toda fórmula secreta é que é
verificável na dinâmica do tempo
refletida em ti, transtornada e bela.

                       (fernando marini)

terça-feira, 1 de novembro de 2011



O equilíbrio mecânico da tua retina
coube-me a visão transfigurada
dos desesperados. Antes que o tempo
se dilatasse nos contornos ausentes
de um espaço invisível
coube-me o silêncio espectral
da tua alma ardente.

            (Diego Fernando)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011


A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
                                     
                                  (Vinícus de Moraes)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ciliares celestes



é sobretudo o limite do tempo que dilacera
vosso estado de coisas, vossa comunhão
com o corpo. sobretudo o silêncio da retina
que despe-te dos cílios, das águas e fuligens
que encantam tua vida, amálgama e céu;
e esse episódio colorido construído em síntese
hermética dá o sentido exato de vosso coração.

                                                    (Fernando Marini)

domingo, 23 de outubro de 2011

Ensaio


Em instantes meu mundo caiu,
e não há o que fazer, não há como voltar,
olhar pra trás e encontrar um motivo pra recomeçar.
Não há mais nada.

Se foram os dias,
As músicas,
As noites,
As filosofias que me frustraram,
As pessoas,

Se foi a credibilidade da diferença,
A sutileza única,
A imagem bela de um ser perfeito.
Se foi,
Se foi tudo.
Se foi a esperança que me guiava pros seus braços,
Se foi a dor de esperar,
Se foi aquela curiosidade.

Veio a descoberta,
A tristeza,
A desilusão,
A falta de expectativas,
O fim.

Quem sabe agora será um novo começo,
O começo verdadeiro, sem hipocrisia,
Sem mentiras,
O primeiro começo.

Antes foi um ensaio pras magoas,
Agora um ensaio rumo à realização.
Percebo que estou distante de todos, de tudo,
Acho que não moro mais aqui,
Acho que não pertenço mais ao espaço dos desesperados.

Agora, o que me resta é esperar,
Aguardar, com paciência,
O que virá...
O que virá?
E se vier?
Estarei aqui...
Morrerei aqui.
Esperaaaaando.

(M. Oliveira)


Onde é que eu fui parar
Aonde é esse aqui
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe…
Tão longe…
Onde é esse lugar
Aonde está você
Não pega celular
E a Terra está tão longe…
Tão longe…
Não passa um carro sequer
Todo comércio fechou
Não tem satélite algum transmitindo notícias de onde eu estou
Nenhum e-mail chegou
Nem o correio virá
E eu entre quatro paredes, sem porta ou janela pro tempo passar
Dizem que a vida é assim
Cinco sentidos em mim
Dentro de um corpo fechado no vácuo de um quarto no espaço sem fim
Aonde está você
Por que é que você foi
Não quero te esquecer
Mas já fiquei tão longe…
Tão longe…
Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar
Por que eu fiquei tão longe…
Tão longe…

domingo, 25 de setembro de 2011



Gargalhada

Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...

Guimarães Rosa
(1908-1967)

terça-feira, 20 de setembro de 2011


"A Gioconda"

Descobri o famoso mistério
Do teu sorriso, Gioconda...
Pensando bem,
É o mesmo sorriso que tem
Essa gente sempre de boca fechada
De tanta gente no mundo...
O que há nisso de profundo? É apenas
Porque já perderam todos os dentes!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]