quarta-feira, 7 de julho de 2010

Serenata

Cecília Meireles

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Alento




Quando nada mais houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.

( Extraído do livro Caio Fernando Abreu- Caio 3D, O Essencial da Década de 1970, p.144)

sábado, 19 de junho de 2010



“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez”.


*Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tens distanciado até meus ventos.
Nem norte, nem sul.
É uma breve lembrança essa terra;
essas paredes, esse teto, aquela cama.

Poemas e brisa, e docura de encantamentos.
Uma combinação perfeita de seres,
de pequenas estrófes feitas da poesia.
Um laço, um traço marcado no centro,
uma linha que some no horizonte
como um olhar distante.

Olhos morteiros e de encanto sublime.
Início previsto num próximo século,
talvez.

Não, não é ser pessimista.
Nossos mundos foram feitos
por mãos diferentes, e o destino
nos deixa assim,
eu tão sem ti, e você tão sem mim.
                             (By Mari)

domingo, 13 de junho de 2010

Vozes do mar



Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...


Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?


Tens cantos d'epopeias?Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!


Donde vem essa voz,ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!
                              (Florbela Espanca)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

          
Nada posso fazer
a não ser
encontrá-lo nas estrelas.
Tocar este corpo esculpido
só pra mim.
Seus olhos penetram minha alma,
me levam até o infinito dos sonhos.
A mente te busca
nos instantes menos esperados.
É você, essa luz do meu caminho,
mas se te vejo longe, te busco
no céu, na música, no silêncio.
E te encontro enfim dentro de mim,
e você vive intensamente,
não corre perigos,
meu coração te proteje
como uma mãe proteje o filho.
Sou a areia branca, e você o mar
a me tocar em delicados sons.
Me perco em você,
falo coisas e me sinto voando,
voando sim,
para seus braços que me afagam
de forma tão calorosa e linda.
Vem! Corra! Onde está você?

quinta-feira, 10 de junho de 2010


Só pensar.
Só querer.
Achar que jamais.
Mas você existe,
Existe profundo e infinito
Existe de trazer paz.
Existe de alegrar os lábios
tão distantes dos seus.
Existe no dentro dessa alma,
desse ser que te busca
nas estrelas,
nas folhas das àrvores,
no frio da manhã,
na saudade incansável.
Só pensar e ter,
um dia será nosso
esse destino,
meu e seu.
Serão nossas as rosas do jardim,
o almoço
o jantar,
o banheiro sujo,
as escovas de dente,
o mesmo cobertor,
o mesmo cheiro,
simplesmente
um só.
Eu e você
no infinito das almas
estaremos de mãos dadas.
                           (By Mari)
Milhares de sons a te buscar
Corpo estendido e branco.
É um céu imenso que te leva,
é um estar longe e perto.
É arrepender-se talvez ,
coisas pequenas,
fizemos descaso delas.
Hoje é sim um estar longe
de corpos e gestos.
Olhares que jamais se virão.
Agora são almas que se encontrarão
num infinito de rosas e águas.
O ar inalado mais puro e fiel.
Os castigos esquecidos num baú
no além.
As mãos vazias, mas o 'coração' cheio.
Estar longe é estar perto um dia,
a esperança que cabe a este ser
e
a este instante surreal.
Suprimido, calado enfim, sentimento
da falta.
Um trecho seu, gravado em mim.
A poesia é a esperança guardada no íntimo
da alma. 
                                        (By Mari)

domingo, 6 de junho de 2010

Retirada


Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.

    (Flora Figueiredo)